O que o futebol dos anos 30 tem a ver com o RPG pago? A resposta pode te surpreender.
Por: Paulo “Faren” Lima

Postado em 

19/03/2025

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10:55

Há algo curioso sobre os debates que envolvem dinheiro. Fale sobre arte e o imaginário popular aplaude; fale sobre a arte sendo vendida e a turba imediatamente pega as tochas e o grito de “mercenário” ecoa. O Mestre de RPG entra nesse teatro tragicômico com a serenidade de um professor de filosofia que é chamado de doutrinador por ensinar a dialética. Ele já sabe que o problema não é o que faz, mas o que representa. O preconceito contra mesas remuneradas não nasce do desconhecimento, mas de um ressentimento enraizado na ideia de que diversão deve ser gratuita, como se o tempo gasto, a criatividade empregada e o estudo necessário fossem dispensáveis. A arte deve ser um sacerdócio, um martírio, um ato de desprendimento absoluto. Curioso é que ninguém exige que um fotógrafo trabalhe de graça ou que um pintor doe seus quadros – mas um Mestre de RPG cobrar pelo seu tempo e talento? Heresia.

O que incomoda tanto no fato de um Mestre de RPG cobrar por seu tempo? Não é a prática em si, mas o que ela representa: a quebra de um status quo onde o RPG é tratado como um espaço de resistência contra a lógica do mercado. Como se a mera existência de mesas pagas fosse um sacrilégio, uma traição à “pureza” do jogo, uma corrupção de algo que deveria permanecer inalterado. Mas o que é essa pureza? O RPG sempre esteve ancorado em um modelo de consumo: livros são vendidos, suplementos são lançados, acessórios são comprados. O jogo sempre custou dinheiro – a diferença é que agora esse custo está se tornando transparente.

O problema não é a monetização, mas a monetização de algo que antes parecia gratuito. É a percepção de que um Mestre não deveria receber pelo seu trabalho porque, por décadas, ele foi visto como apenas mais um jogador, um facilitador desinteressado, um amigo que se dedicava por amor à narrativa. O mesmo moralismo seletivo que condena a profissionalização do RPG já aconteceu antes, em outros campos. Rafael Castelo Branco, do blog Meus Pergaminhos, trouxe um exemplo brilhante: nos anos 30, a ideia de pagar jogadores de futebol foi vista como um escândalo (Artigo: “O futebol na proposta autoritária e corporativista da Era Vargas“, por Luiz Carlos Ribeiro e Jhonatan Uewerton Souza). O presidente do Flamengo chegou a comparar o pagamento de atletas com prostituição. Futebol deveria ser paixão, entrega, amor à camisa – e o dinheiro destruiria isso.

Décadas depois, o futebol profissionalizou-se, cresceu, tornou-se um dos maiores fenômenos culturais do planeta. Hoje, ninguém questiona a necessidade de remunerar jogadores. A paixão não desapareceu; pelo contrário, foi impulsionada por essa profissionalização. O mesmo está acontecendo com o RPG, e a resistência é apenas o reflexo de um conservadorismo travestido de idealismo.

É importante diferenciar o momento de lazer entre amigos de um serviço efetivamente contratado. Em muitos grupos, o ato de narrar faz parte da diversão mútua, em que todos participam espontaneamente e colaboram para manter a campanha fluindo. Nesses casos, o mestre não funciona como um prestador de serviço isolado, mas como alguém que gosta de criar histórias e passa tempo ao lado de seus companheiros de jogo. Por outro lado, há situações em que se busca uma estrutura mais elaborada, na qual o narrador oferece materiais de primeira linha, cenários prontos, miniaturas, assinatura de VTTs e módulos caros e outros recursos. Esse cenário lembra a comparação com o futebol: nem todo mundo precisa pagar para reunir amigos e bater bola; porém, quando se quer algo mais organizado e profissional, é natural contratar um local específico ou, analogamente, um narrador que forneça toda a experiência de entretenimento.

O argumento moralista, sempre decorado com saudosismo, crava sua bandeira na ideia de que antigamente se jogava entre amigos, sem dinheiro envolvido. Ora, antigamente o pão também era trocado por trigo e ninguém pagava assinatura para ver séries. Os tempos mudaram, e não há nada de profano nisso. O RPG nunca foi um templo sagrado, intocado pelo vil metal. Desde os primórdios, livros eram vendidos, suplementos surgiam no mercado, e a necessidade de investir tempo e dinheiro para jogar era um fator real. A diferença é que, agora, esse custo se tornou explícito. O Mestre não é mais apenas o amigo altruísta que organiza a diversão do grupo: ele se profissionalizou.

A resistência à profissionalização do RPG segue a mesma lógica do amigo que compra um apartamento luxuoso e depois reclama do preço cobrado pelo pintor. Tenho um conhecido que recentemente adquiriu um imóvel incrível em Palmas – Tocantins por um milhão de reais. Estava radiante, descrevendo a vista deslumbrante, a arquitetura impecável, a valorização garantida. Dias depois, o mesmo amigo se indignava porque o pintor cobrou sete mil reais para pintar o apartamento. Uma fração ínfima do investimento inicial – mas, para ele, inaceitável. Como se o trabalho do pintor fosse menor, indigno de um valor justo.

O mesmo acontece com Mestres de RPG. Paga-se sem hesitação pelos produtos físicos – os livros, as miniaturas, os mapas –, mas quando o custo recai sobre o serviço de um Mestre, a indignação aparece. Como se criatividade, estudo, tempo e narrativa não fossem igualmente valiosos. Como se o trabalho intelectual de construir uma campanha, de manter a atenção do grupo, de equilibrar regras e improviso, fosse algo menor.

Por fim, há quem argumente que, se o mestre utiliza campanhas prontas, não haveria diferença entre o serviço profissional e o amador, pois o material supostamente “se narra sozinho”. Contudo, mesmo em aventuras pré-elaboradas, o processo de planejar, estudar regras, adaptar encontros e conduzir a narrativa não acontece de forma automática. Preparar mapas, customizar combates, ajustar o ritmo de jogo e inserir elementos adequados ao grupo demandam esforço significativo, seja para quem o faz em um círculo de amigos ou como prestador de serviço. Imaginar que basta adquirir uma aventura publicada para que tudo corra perfeitamente, sem investimento de tempo ou dedicação, é um equívoco que ignora a atuação criativa e a responsabilidade de qualquer mestre, pago ou não.

A Ilusão da “Gratuidade”

Claro, há aqueles que romantizam a “pureza” do RPG como se fosse um relicário inviolável. Mas a romantização sempre esconde um desejo de manutenção de privilégios. No fundo, o que incomoda não é a existência de mesas pagas, mas a possibilidade de que esse modelo acabe com a lógica amadora que favorecia apenas aqueles que podiam se dar ao luxo de preparar campanhas longas sem remuneração. Quem nunca precisou contar moedas para comprar um manual básico ou um módulo no Foundry não sente o peso desse desequilíbrio.

O conservadorismo brasileiro encara o RPG remunerado como encara qualquer transformação social: com escárnio, desdém e um certo temor de que algo precioso está sendo corrompido. Mas será que há corrupção na valorização do trabalho? Será que o ato de pagar por uma experiência torna essa experiência menos genuína? Se aceitamos pagar para ver um filme, ler um livro ou participar de um escape room, por que não pagar por uma boa sessão de RPG?

Talvez porque a mentalidade de que o RPG deveria ser uma resistência, um espaço de rebeldia contra a lógica do mercado, ainda esteja impregnada em alguns. Mas resistir a quê? À possibilidade de alguém fazer disso sua profissão? À chance de um Mestre talentoso viver daquilo que ama? É um purismo seletivo, que se diz contra a monetização, mas que não hesita em comprar dados metálicos caros ou gastar pequenas fortunas em miniaturas importadas. O dinheiro, no fim, nunca foi o problema – a questão é quem está ganhando com ele.

O argumento mais recorrente contra as mesas remuneradas é a nostalgia de um tempo onde “todo mundo jogava de graça entre amigos”. Uma visão romantizada que ignora o custo real do jogo. RPG nunca foi gratuito. Sempre houve um investimento, seja na compra de manuais, na impressão de fichas, na aquisição de dados, mapas, miniaturas. O que muda com a profissionalização do Mestre não é a existência desse custo, mas a forma como ele se distribui.

Antes, era o Mestre quem assumia essa carga sozinho. Ele estudava regras, criava mundos, desenhava mapas, organizava encontros – e tudo isso sem receber nada em troca além da gratidão dos jogadores (quando muito). Agora, ao cobrar, ele apenas redistribui esse custo de maneira justa. E isso fere a sensibilidade de quem se beneficiava da “gratuidade”. Como qualquer mudança estrutural, essa transição incomoda porque expõe um privilégio: o de jogar às custas do esforço alheio.

O que surpreende é como esse incômodo não se aplica a outros aspectos do hobby. É aceitável gastar centenas de reais em um conjunto de dados metálicos importados, mas pagar um Mestre por seu tempo e talento é um absurdo. O problema nunca foi o dinheiro, mas o destinatário desse dinheiro.

 

 

O Medo da Mudança e a Hipocrisia da Resistência

A resistência ao RPG remunerado não tem nada a ver com proteger sua essência. O problema não é a existência de mesas pagas, mas o impacto que elas geram sobre a percepção do que significa ser Mestre. No momento em que a figura do Mestre deixa de ser apenas um facilitador amador e passa a ser reconhecida como profissional, cria-se um novo padrão de qualidade. E padrões exigem adaptação.

O que incomoda os críticos da profissionalização não é o dinheiro em si, mas o fato de que agora há uma diferenciação explícita entre Mestres experientes, que cobram por suas campanhas estruturadas e bem elaboradas, e aqueles que apenas improvisam por hobby. Esse desconforto não é novo. A mesma reação aconteceu em diversas áreas criativas. Fotógrafos que começaram a cobrar por seus ensaios foram acusados de mercantilizar a arte. Escritores que passaram a vender seus textos deixaram de ser “autênticos”. Músicos que se apresentavam por dinheiro foram chamados de vendidos. O medo da profissionalização não vem do dinheiro – vem da insegurança de quem teme não conseguir acompanhar esse novo padrão.

Mas a verdade é que a profissionalização não mata o RPG amador – ela apenas amplia as opções. O teatro amador não desapareceu porque existem produções da Broadway. Bandas de garagem ainda existem, mesmo com shows de grandes artistas lotando estádios. Um modelo não anula o outro. O RPG gratuito sempre vai existir, e a sua coexistência com mesas pagas não destrói nada. Só assusta aqueles que percebem que, para se destacar, precisarão se esforçar mais.

Algumas pessoas consideram que, ao defender a remuneração do mestre como algo universal, corre-se o risco de generalizar a ideia de que todo narrador deve ser pago em qualquer contexto. Isso gera incômodo, pois passa a impressão de que quem joga com amigos, sem custos, estaria sendo injusto ou “explorando o trabalho” de quem narra. No entanto, faz-se necessária a compreensão de que o jogo entre conhecidos, sem troca financeira, continua sendo tão legítimo quanto o esquema em que todos decidem pagar por um pacote de entretenimento completo. Não se trata de desmerecer o esforço criativo do narrador, mas de entender que existem níveis de compromisso e de recursos investidos, variando de um simples encontro de amigos até a prestação profissional de um serviço.

O conservadorismo que se levanta contra o RPG pago usa o argumento da tradição como escudo. Mas tradição não é sinônimo de qualidade. O futebol amador era bonito em sua essência, mas tinha suas limitações. Sua profissionalização não o matou – o aprimorou. O RPG está passando pela mesma transição. E quem não entende isso ficará para trás.

O Futuro do RPG e o Profissionalismo Inevitável

A profissionalização do RPG não significa o fim do jogo como o conhecemos. Pelo contrário, ela permite que ele evolua, se expanda, atinja novos públicos. O mercado de mesas remuneradas está crescendo porque há demanda. Pessoas querem experiências de qualidade, Mestres dedicados, campanhas bem construídas. Não é um movimento artificial – é uma resposta natural ao próprio amadurecimento do hobby.

O Mestre de RPG sempre foi mais do que um simples jogador. Ele é um contador de histórias, um facilitador, um mediador, um artista. Sua função exige habilidades específicas, e é justo que ele seja remunerado por isso. RPGs bem conduzidos são experiências imersivas, que exigem planejamento, criatividade, improviso e controle narrativo. O fato de algumas pessoas poderem fazer isso por hobby não significa que ninguém deva fazê-lo profissionalmente.

Algumas reações na internet surgem quando se iguala, sem ressalvas, a mesa de um grupo de amigos e a contratação de um mestre profissional. Trata-se de duas categorias distintas: em uma, o narrador é parte do próprio círculo de jogadores, entretendo e também sendo entretido, enquanto na outra, ele assume responsabilidades. Pressupor que todo narrador seja obrigado a cobrar acaba gerando uma falsa equivalência, pois nem todas as experiências de RPG têm a mesma demanda ou oferecem a mesma estrutura. Valorizar o trabalho de quem cobra não significa ignorar o prazer genuíno de narrar gratuitamente em um grupo de amigos, mas sim reconhecer que cada modelo atende a necessidades e expectativas diferentes.

No fim, o que realmente separa os críticos da profissionalização dos que a aceitam não é um debate sobre o “espírito do RPG”. É sobre o desconforto de perceber que, talvez, seja preciso fazer mais para se destacar. É sobre a insegurança de ver um espaço antes gratuito agora dividido com profissionais. Mas o RPG, assim como qualquer outra forma de arte, não perde sua essência ao ser valorizado. Pelo contrário, ele se fortalece.

A questão não é mais se o RPG pago deve existir. Ele já existe. A questão é: você está preparado para aceitar essa realidade, ou vai continuar preso a um saudosismo seletivo que só resiste porque teme a mudança?

Sobre o Autor

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Paulo "Faren" Lima

Considera RPG terapia, trabalha na Stone Co, viciado em processos, nascido e criado no Tocantins, narra em The Witcher.

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Uma resposta

  1. É a Uberização do Mestre de RPG… A verdade que muitas pessoas que reclamam não percebem é a seguinte: mestres que decidem cobrar por suas sessões estão, na maioria das vezes, em busca de fontes alternativas de renda. Não há nada de errado em oferecer um serviço que envolve tempo, dedicação e expertise para narrar aventuras para desconhecidos. Se não houvesse demanda por esse tipo de serviço, esses mestres não estariam “narrando de graça”; provavelmente estariam buscando outras formas de conseguir uma renda extra. Reclamar dessa prática é tolice, no mínimo, e ingenuidade.
    O brasileiro, devido a sua história, não quer remunerar o Serviço de forma adequada, como o caso do pintor citado no texto.
    Acrescento mais uma anedota sobre jogadores de RPG: na minha experiência, muitos jogadores de RPG tendem a ser “pirangueiros”. Na minha cidade, por exemplo, havia um evento de RPG em uma hamburgueria. A administração do local decidiu parar de ceder o espaço porque os jogadores ocupavam as mesas por horas, mas não consumiam quase nada.

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