O lançamento no Brasil de Lancer, o queridinho dos amantes de mechas, é uma promessa que carrega consigo o peso das expectativas.
Por: Paulo “Faren” Lima

Postado em 

09/02/2025

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13:41

Análise Sobre o Lancer RPG, Lançado de Pela Tria Editora

O RPG moderno gosta de prometer. Promete liberdade, profundidade, dinamismo. Promete narrativas épicas e sistemas revolucionários. Lancer, o queridinho dos amantes de mechas, é uma dessas promessas. E como toda grande promessa, carrega consigo o peso das expectativas.

A que ponto chegamos? Eu pergunto, sinceramente, com um misto de fascínio e desespero, porque, veja bem, há anos sou um idiota convicto, um entusiasta das coisas que parecem caminhar contra a maré. Sempre fui o tipo de pessoa que defende o indefensável, como ter a 4ª edição de D&D como a favorita, e pior, ser conhecido como o maior advogado dela.

Isso é algo que se apega ao inútil, que abraça a poesia onde todos veem apenas manual técnico. E agora estou aqui, completamente embasbacado com Lancer.

Em Proteção Contra Alienígenas, no episódio da Netflix, mostra corajosos sobreviventes em um mundo pós-apocalíptico dominado por alienígenas. Uma temática difícil de não gostar, não é mesmo? Adicione um pouco de comédia, um grupo de mechas gigantes controlados por humanos, ótimas cenas de ação, e você terá um bom episódio de Love, Death & Robots. Lancer é isso!

Um Cenário Futurístico de Ferro e Ilusões

Você já se perguntou por que amamos mechas? Porque o homem, esse bicho pretensioso e sempre insatisfeito com a própria existência, sonha em ser mais do que carne e osso? Mechas são armaduras para a fragilidade da alma humana. Não se engane, Lancer é um RPG sobre tática e guerra, mas também sobre existência.

O cenário de Lancer é um devaneio sci-fi que oscila entre a grandiosidade e a saturação. Há uma distância brutal entre ser apenas um jogo sobre robôs gigantes e ser um jogo onde cada batalha carrega um peso narrativo, político e social.

A humanidade rastejou para fora da ruína climática e se espalhou pela galáxia, mas o que encontramos não é uma utopia. A galáxia de Lancer é um reflexo distorcido do que somos: A União, essa entidade onipresente, se esforça para manter a paz, mas por trás da propaganda, há conflitos latentes, colonialismo velado e uma elite que decide os rumos do universo. Você luta pelo quê? Por quem? Pelo sonho utópico? Pelo próprio bolso? Pelo niilismo absoluto?

A premissa é instigante. Há um quê de Blade Runner misturado com Evangelion, uma melancolia sufocada sob a poeira dos motores. Mas o problema de Lancer não é sua ambientação – é sua insistência em atirar conceitos demais sem aprofundar nada. A galáxia de Lancer é rica, mas paradoxalmente rasa, repleta de facções, filosofias e tecnologias que surgem como frases soltas, esperando que o Mestre costure algo coeso. Para alguns viciados em sandbox como eu, isso é liberdade. Para outros, um trabalho mal-acabado. Mas, se bem conduzido, esse excesso pode ser um prato cheio para quem gosta de construir histórias junto com o grupo.

Estratégia ou Engessamento?

E aí entramos no cérebro do jogo. O sistema. O combate tático é uma dança. Não é o caos absoluto de um Warhammer 40K, nem a previsibilidade de um RPG tradicional alá D&D. Lancer se vende como um RPG tático inovador. E, de fato, seu combate é bem estruturado.

E então vem a grande sacada. Você não é apenas um piloto de um robô gigante. Você também é uma pessoa. E quando não está dentro de sua máquina, você é vulnerável. Há um modo narrativo para o jogo fora dos mechas. Porque mesmo envoltos em ferro e circuitos, a carne ainda sente. A existência ainda pesa.

O problema? Lancer exige tempo. E paciência. Muito mais do que a maioria dos RPGs convencionais. Geração GURPS, Savage Worlds e D&D antigo amará, já a geração Ordem Paranormal, talvez nem tanto.

Cada turno é um exercício de posicionamento e cálculo. Cada combate pode se arrastar por horas, especialmente com jogadores novos acostumados com coisas mais simples – embora testes com jgaodres novatos, mas que ao menos lêem, foi tranquilo conduzir com um mestre atento.

O sistema de turnos pode parecer um inferno burocrático para quem esperava algo mais fluido. O que deveria ser uma guerra eletrizante se torna, em muitos casos, um jogo de xadrez onde cada peça leva meia hora para se mover. Se você gosta de estratégia complexa, ótimo. Se busca ação cinematográfica, pode se frustrar.

Não descarto que há um desequilíbrio entre o combate e o jogo narrativo. Fora do mecha, as regras de Lancer são leves, quase descompromissadas. Parece um outro jogo, colado ali como um remendo. Enquanto a batalha exige minúcia e cálculo, as interações entre personagens são quase improvisadas. O contraste é gritante. Não há um meio-termo. Ainda assim, há quem veja nisso uma vantagem, pois permite um respiro entre os combates, oferecendo uma dualidade interessante para grupos que gostam de transitar entre tática e narrativa.

A Personalização é Real?

Personalização é a palavra mágica de Lancer. Mas até que ponto essa liberdade é real? O sistema modular permite criar mechas personalizados, sim, mas dentro de uma estrutura bem delimitada. Algumas combinações são claramente superiores a outras. Há opções tão específicas que se tornam inúteis fora de cenários muito específicos.

Seu sistema de personalização promete variedade, mas tem um grande risco de acabar levando os jogadores para escolhas óbvias, matando parte do encanto da customização. Algo quase comum: os 3 níveis de Guerreiro, ou a multiclasse de Bruxo com Paladino no D&D e que o diga.

Os fabricantes de mechas tentam injetar personalidade ao jogo, mas servem mais como etiquetas estilísticas do que como diferenciadores mecânicos profundos. Você pode querer um mecha elegante da SSC, mas se ele não oferecer a eficiência necessária, alguns talentos eu senti que não há motivo para escolhê-lo além da estética. E em um jogo onde estratégia é tudo, estética sozinha não segura. Porém, para quem gosta de lapidar detalhes e experimentar diferentes combinações, o sistema oferece um vasto território para criatividade.

 

Lançamento No Brasil Pela Tria Editora

O lançamento da versão brasileira pela Tria Editora pode ser o impulso que Lancer precisa para crescer no Brasil. Para os entusiastas do gênero, essa é a chance de ver o jogo expandir suas fronteiras e, quem sabe, estabelecer uma base sólida de jogadores no país.

Até agora, Lancer no Brasil tem sido um RPG de nicho, sustentado por uma comunidade pequena, mas apaixonada. O r/LancerRPGBR no Reddit é um dos poucos espaços onde jogadores trocam informações, discutem regras e organizam mesas. No entanto, sem uma base maior de jogadores, o jogo corre o risco de permanecer um título obscuro, conhecido apenas por um seleto grupo de entusiastas.

A Tría Editora não é novata no mercado de financiamento coletivo, veja bem, tem uma história… de redenção, sua trajetória nos últimos anos reflete tanto desafios quanto aprendizados. Há dois anos, enfrentou problemas com a entrega do Bestiário Brasileiro, uma situação que, embora pontual, ficou marcada. Atrasos. Uma falha que serviu de aprendizado. Não é bonito? O fracasso moldando a competência. No entanto, longe de repetir erros, a editora fez ajustes estratégicos e provou sua capacidade de cumprir prazos.

Em 2024, todos os financiamentos foram estruturados com o PDF da meta base já pronto e liberado assim que a meta foi atingida. Esse modelo demonstrou eficiência: Beyond the Wall teve seu livro básico entregue 58 dias após o financiamento, e seu módulo Foundry já está disponível. PunkApocalyptic está dentro do prazo, com previsão de entrega para o próximo mês, apenas três meses após o fim do financiamento. Symbaroum já conta com o livro básico impresso e várias metas extras entregues. Já Hopefinder, lançado em janeiro deste ano, teve seus PDFs liberados no primeiro dia do financiamento e, apesar da campanha se estender até março, as metas extras já estão em produção.

Esse histórico de entregas bem-sucedidas me fez recuperar a credibilidade da editora e estabeleceu um precedente positivo para Lancer. Você paga, você recebe. Sem ilusões, sem enrolação. A promessa é clara: assim que a meta do financiamento for atingida, o PDF será liberado imediatamente.

Com materiais acessíveis, suporte contínuo e um histórico sólido de entregas, a editora tem nas mãos a chance de transformar um nicho disperso em uma comunidade vibrante. Para aqueles que sempre quiseram ver um RPG tático de mechas ganhar espaço no país, esta pode ser a melhor oportunidade.

O Que Está Incluso No Financiamento De Lancer

A edição brasileira de Lancer será robusta. O financiamento coletivo trará não apenas o Livro Básico (432 páginas), mas também o livro de cenário Long Rim (64 páginas), poso Escudo do Mestre e um conjunto de dados personalizados já incluídos na meta base. Esse pacote garante uma experiência completa para os jogadores, cobrindo tanto as regras essenciais quanto material adicional para enriquecer as campanhas.

Vale A Pena?

Lancer tem ideias brilhantes, mas também tropeça em sua própria ambição. Seu sistema de combate é um deleite para quem ama estratégia detalhada, mas um pesadelo para quem busca ritmo e fluidez. Sua ambientação é fascinante, mas deixa nas mãos do Mestre o trabalho de amarrar pontas soltas.

Se você é um fã obstinado de mechas e gosta de desafios táticos extensos, vá em frente. Mas se procura um combate mais equilibrado, onde narrativa e combate se complementam sem parecerem dois jogos diferentes, talvez Lancer não seja para você. Entretanto, para aqueles que superam a curva de aprendizado e se dedicam ao sistema, Lancer pode oferecer algumas das batalhas mais estratégicas e intensas do RPG moderno.

Mas se você, assim como eu, ama ser idiota, ama mergulhar em mundos onde o concreto encontra a fábula, onde cada decisão dentro e fora de um cockpit importa, onde quero lembrar por semanas aquela sessão de RPG… então Lancer é para você.

No fim, a pergunta que resta não é se você está pronto para subir no seu mecha. É se você tem tempo e paciência para fazê-lo funcionar. Se sim, pode ser uma experiência inesquecível.

Dia 11 de fevereiro, o Cartase abre. Vai encarar?

Sobre o Autor

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Paulo "Faren" Lima

Considera RPG terapia, trabalha na Stone Co, viciado em processos, nascido e criado no Tocantins, narra em The Witcher.

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