A liberdade. Um conceito tão vendido quanto mal compreendido. Todo RPG de mesa promete liberdade: crie seu personagem, explore o mundo, faça escolhas. Mas, quase sempre, essa promessa vem com uma coleira – um Mestre de Jogo que define os limites, arbitrando entre o possível e o impossível. A questão é: a liberdade dentro de um RPG é real, ou é apenas um teatro bem conduzido? Vamos para a análise.
Uma Breve Retrospectiva
Lançado inicialmente em 2021, Altaris RPG destacou-se por sua abordagem inovadora no cenário dos jogos de mesa brasileiros. Inspirado em elementos clássicos da fantasia medieval, o jogo introduziu espécies únicas, como os Javaliques e Komodos. Essa simplicidade, aliada à possibilidade de jogos solo, conquistou uma base fiel de jogadores que apreciavam a flexibilidade e acessibilidade do sistema.
Não há árbitro, não há um juiz onisciente, não há narrador oculto controlando as engrenagens do jogo. Cada jogador é responsável por sua própria jornada e pela forma como o jogo se desenrola. Não há mapas predefinidos ou tabelas para consultar antes de decidir se uma porta está trancada. O jogo se move no ritmo dos jogadores. Se isso soa como uma revolução, talvez seja. Mas revoluções vêm com um preço: o peso da escolha está todo nos ombros do grupo.
E antes de qualquer hesitação sobre “comprar para testar”, a resposta é simples: a primeira edição está disponível gratuitamente. Sem desculpas. Se há curiosidade. Deixamos um link no final do artigo.
Sistema sem gordura: o mínimo necessário para um jogo existir
Muitas regras, muitas rolagens, muitas tabelas. RPGs tradicionais adoram a ilusão de controle absoluto, onde cada ação tem um número exato atrelado. Altaris RPG corta essa gordura sem piedade. O sistema se resume a uma única rolagem: um dado de seis faces.
- 1, falha.
- 6, sucesso.
- Qualquer outra coisa, um meio-termo que se resolve na narrativa.
Se o jogador quiser aumentar suas chances, pode gastar Pontos de Energia (PE) para subir o número da rolagem. O jogo não depende de estatísticas complexas, mas sim da administração desse recurso. E quando o PE acaba, os riscos ficam reais.
Nos combates, o princípio é o mesmo: se não for 1, o ataque acerta. Se for 6, acerto crítico. Os inimigos, por sua vez, acertam automaticamente os jogadores, acelerando a ação e dispensando qualquer necessidade de “acertar ou errar” nos ataques inimigos. Aqui, não há espaço para rolagens infinitas que emperram a narrativa.
O resultado? Um jogo que anda rápido. As mecânicas servem ao fluxo da história, não o contrário. No papel, isso soa promissor, mas há um problema implícito: sem a estrutura tradicional, o sucesso do jogo depende inteiramente da forma como os jogadores lidam com essa liberdade. O sistema não te segura se você não souber para onde ir.
O Oráculo: a única voz de autoridade
Sem Mestre, quem decide o que acontece? Aqui entra o Oráculo, um conceito simples, mas potente. Sempre que surge uma dúvida — “A porta está aberta?”, “O mercador confia em mim?”, “O dragão pode ser convencido?” — o grupo consulta o Oráculo, que responde sim, não ou talvez. Essa mecânica dá a fluidez necessária para o jogo continuar sem precisar de um árbitro.
Mas há um detalhe: o Oráculo não pensa, não corrige e não sugere. Ele apenas responde. O que significa que os jogadores precisam saber formular perguntas da forma certa e interpretar as respostas de forma coerente. Para quem já jogou Ironsworn, Fiasco ou outros RPGs narrativos, essa abordagem faz sentido. Para quem vem de um jogo mais estruturado, pode parecer um salto sem paraquedas.
O maior trunfo — e a maior armadilha — de Altaris RPG é a imprevisibilidade. O jogo não tem um cenário fixo, não há mapas detalhados ou um bestiário estruturado. Tudo nasce na mesa, de forma espontânea, com base nos jogadores e no que eles trazem para o jogo.
Os módulos de aventura, que acompanham a primeira edição, são menos roteiros e mais gatilhos narrativos. Cada módulo apresenta uma premissa e alguns desafios, mas não determina como a história se desenvolve. Isso significa que uma mesma aventura pode tomar rumos completamente diferentes dependendo do grupo.
Isso é libertador. Isso é caótico.
A pergunta que fica é: essa imprevisibilidade é um convite à criatividade ou apenas uma desculpa para a falta de estrutura? A resposta, mais uma vez, depende do grupo. Em mãos certas, Altaris permite histórias únicas, criadas na hora, sem necessidade de preparação prévia. Em mãos erradas, o jogo se torna um mar de incertezas, onde ninguém sabe para onde ir e a experiência se perde.
Essa flexibilidade faz dele um excelente jogo introdutório para novatos no RPG. Como não há necessidade de preparação excessiva e as regras são simples, é um sistema acessível para quem nunca jogou antes. A barreira de entrada é mínima, e a experiência se molda ao que os jogadores quiserem.
Primeira edição gratuita: experimente antes de decidir
O que torna Altaris RPG um caso raro entre RPGs independentes é que você pode testá-lo sem gastar nada. A primeira edição está disponível para download gratuito, permitindo que qualquer um experimente a proposta sem compromisso. Isso é um diferencial enorme em um mercado onde muitas vezes os jogos independentes exigem investimento sem sequer permitir um gostinho do sistema antes da compra.
Se há dúvidas, a melhor forma de resolvê-las é baixando e jogando. Sem trailers, sem hype, sem promessas vazias — a experiência fala por si só.
Baixe Altaris RPG gratuitamente aqui.
Perfil da Coisinha Verde
A Coisinha Verde nunca seguiu a cartilha do mercado. Enquanto outras editoras buscavam sistemas consagrados, além de Altaris, ela apostou em jogos que desafiam as convenções: Gatunos, uma experiência solo onde o jogador controla um gato; Ronin, um RPG narrativo inspirado no Japão feudal. O catálogo é um reflexo da proposta da editora: acessibilidade, criatividade e simplicidade, sem abrir mão de inovação.
Mas ser independente no Brasil é um jogo de sobrevivência. Sem grandes financiadores ou estrutura corporativa, a editora depende das vendas diretas e de financiamentos coletivos para continuar existindo. Isso já seria um desafio em tempos normais, mas a realidade recente impôs obstáculos ainda maiores.
A queda do Bazar Verde, o site que oferecia materiais gratuitos e promovia criadores independentes, foi um golpe para a comunidade. O domínio caiu, e com os atrasos acumulados nos projetos — agravados pelas enchentes que afetaram a editora — a prioridade se tornou entregar o que já foi prometido antes de pensar em reerguer iniciativas paralelas.
A Segunda Edição de Altaris RPG: O Que Há de Novo?
O financiamento coletivo de Altaris RPG – Segunda Edição surge exatamente nesse contexto. Se a primeira edição já foi um experimento ousado, agora o jogo ganha uma versão expandida, mais bem estruturada e com novos módulos de aventura. Mas o sucesso desse financiamento não significa apenas o futuro de Altaris — ele pode definir os próximos passos da própria Coisinha Verde.
A campanha surge como uma resposta tanto ao desejo da comunidade por conteúdo adicional quanto à necessidade da editora de se reerguer. Esta nova edição promete uma série de aprimoramentos e novidades:
- Formato Expandido: Diferentemente da primeira edição, que consistia em um único livro de 40 páginas, a segunda edição será apresentada em uma caixa contendo dois manuais de 48 páginas cada: o Manual Básico e o Manual Avançado. Ambos terão capa cartonada e miolo colorido, oferecendo uma experiência visual mais rica.
- Conteúdo Adicional: A caixa incluirá três aventuras inéditas, três fichas de personagens pré-gerados e dois dados de seis faces, proporcionando aos jogadores tudo o que é necessário para iniciar uma sessão imediatamente.
- Sistema Refinado: Mantendo a essência de simplicidade que caracterizou a primeira edição, o sistema continuará utilizando apenas dados de seis faces. Testes de habilidade serão bem-sucedidos com o resultado “6”, enquanto ataques acertarão o alvo com qualquer resultado diferente de “1”. A gestão estratégica dos Pontos de Energia (PE) permanece central, permitindo aos jogadores influenciar os resultados de suas ações.
Detalhes da Campanha de Financiamento
A campanha de financiamento coletivo foi lançada no Catarse, com uma meta inicial de R$ 10.000 a ser alcançada em 60 dias. Surpreendentemente, até a data da postagem, em apenas 25 dias, a campanha já havia arrecadado R$ 20.000, demonstrando o forte apoio da comunidade. Com o atingimento dessa meta, foram desbloqueadas metas adicionais, incluindo a produção de duas aventuras extras. A próxima meta, estabelecida em R$ 20.000, prevê a inclusão de um bloco de fichas de personagem na caixa do jogo. Os apoiadores têm até o dia 24 de março de 2025 para contribuir com o projeto. As recompensas variam desde a versão digital do jogo, disponível por R$ 20, até a caixa física completa, oferecida por R$ 150 com frete gratuito. A previsão de entrega dos materiais é para maio de 2025, apenas dois meses após o término da campanha.
A Segunda Edição de Altaris RPG representa não apenas uma evolução de um jogo querido, mas também uma oportunidade de fortalecer uma editora que, apesar dos desafios, continua dedicada a fomentar a cultura do RPG no Brasil. Ao apoiar esta campanha, você contribui para a diversidade e riqueza do nosso cenário lúdico, garantindo que projetos independentes e apaixonados continuem a ter espaço e voz.
Para mais informações e para apoiar o projeto, visite a página oficial da campanha no Catarse: Altaris RPG – Segunda Edição.